sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ocupações no Centro de SP têm taxas para manutenção e limpeza e regras rígidas de convivência

Por Paula Paiva Paulo e Daniel Médici, G1 SP

Na cozinha de um apartamento com vista para a movimentada Avenida São João, no Centro de São Paulo, o funcionário da Ultragaz foi alertado assim que entrou com o botijão: “É para deixar perto da janela. É recomendação dos Bombeiros”, disse Taís, moradora de uma das cerca de 70 ocupações da região central da cidade.

O gás foi entregue na casa do casal Altair - que pede para ser chamada de Taís - de 54 anos, e Anísio Miranda, de 73. O prédio de 6 andares que um dia foi o Hotel Columbia Palace é ocupado desde 2010 por famílias que fazem parte do Movimento Sem Teto pela Reforma Urbana (MSTRU), ligada à Frente de Luta pela Moradia (FLM). Hoje, o local abriga 77 famílias.

As ocupações urbanas no Centro de São Paulo estão sob os holofotes desde o incêndio e desabamento de um prédio de 24 andares no Largo do Paissandu na última terça-feira, dia 1º de maio. Três dias depois, o Corpo de Bombeiros segue na busca de quatro vítimas que estariam sob os escombros. Além disso, 49 pessoas que estavam cadastradas como moradores não se apresentaram à Prefeitura.


A baiana Célia da Conceição com a bisneta em ocupação na Avenida São João, no Centro de SP (Foto: Marcelo Brandt/G1 )

Segundo a coordenadora da FLM, Antônia Ferreira Nascimento, o prédio da São João passou por três vistorias dos Bombeiros em 2017. “Não estava perfeito, mas estamos ajeitando”. Uma das recomendações era um corrimão na escadaria, que está sendo providenciado.

Para serviços e reformas como essas no prédio, é cobrada uma taxa de R$150 por família, o que foi decidido em uma assembleia entre os moradores, explicou a coordenadora. “Toda hora acontece uma coisa, toda hora um cano quebra. Fora o próprio movimento, que precisa de ajuda financeira, com as bandeiras e todo o material para ir pra rua”. Além disso, segundo Antônia, o valor vai para a limpeza e segurança – o prédio tem câmeras de segurança e porteiro.

A ocupação do Hotel Columbia é uma das 15 da Frente de Luta por Moradia (FLM) no Centro da cidade. “Em todas as ocupações, a gente orienta para que tenha contribuição decidida em assembleia para cuidar do prédio, fazer a zeladoria, melhorar parte da iluminação”, conta Osmar Silva Borges, membro da direção da FLM.

A água e a luz do prédio não são regularizadas. Segundo a coordenadora Antônia, eles pediram a ligação regular para Prefeitura, o que não foi atendido, por ser uma ocupação irregular.

O casal Taís e Anísio moram há sete anos na ocupação onde um dia foi o Hotel Columbia Palace (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Além da FLM, o Centro tem ocupações da União dos Movimentos de Moradia (UMM), do Movimento Moradia para Todos (MMPT), entre outros, menores. O Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), responsável pelo prédio que desabou, tem ainda 5 ocupações. Mas, segundo Osmar, ele não é reconhecido no meio como um movimento organizado.

“Porque não participam de nenhum espaço para políticas de habitação, não fazem a luta pela reforma urbana. É um grupo que surgiu de forma oportunista na cidade, como vários outros grupos”. Entre esses espaços, o militante cita os conselhos municipal e estadual de Habitação.

A Polícia Civil procura os responsáveis pela ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida, que desmoronou. A investigação quer ouvir, entre outros, Ananias Pereira e uma mulher conhecida como Irmanil, apontados como líderes do MLSM e responsáveis pelo prédio.

“Estamos lá ajudando para dar uma saída para as famílias, elas não podem ser penalizadas pelas pessoas que as abandonaram quando elas mais precisam”, completa Osmar.


A ocupação do antigo Hotel Columbia hoje tem biblioteca, Cineclube, plantão psicológico, alfabetização de idosos e um espaço comunitário para saraus e eventos culturais. Pela 9ª vez desde 2010, estão com a reintegração de posse marcada. Esta, para o dia 10 de junho. O movimento espera mais uma vez conseguir reverter a decisão.

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