Em cinco meses o ex-prefeito não saiu do lugar e Jerônimo subiu três pontos. É esse o dado da pesquisa desta terça-feira, e não o empate técnico que virou manchete - Jerbson Moraes Advogado, mestrando em Direito e colunista
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| Dr.Jerbson Moraes |
Por Dr.
Jerbson Moraes Advogado, mestrando em Direito e colunista
Em março, o Real Time Big Data ouviu dois mil eleitores baianos e encontrou ACM Neto com 44% das intenções de voto para o governo do estado e Jerônimo Rodrigues com 39%. Nesta terça-feira, cinco meses depois, o mesmo instituto divulgou nova rodada, agora com 1.600 entrevistados: ACM Neto, 44%. Jerônimo Rodrigues, 42%.
A manchete do dia foi o empate técnico. A informação era outra.
Entre uma pesquisa e outra o ex-prefeito de Salvador não andou um passo, enquanto o governador andou três pontos e transformou uma desvantagem de cinco numa desvantagem de dois. Pesquisa mede intenção declarada num intervalo de cinco dias e não profetiza nada, o que é verdade e costuma ser dito com ar de descoberta. Mas série histórica é outra coisa, e série histórica é o que se tem aqui.
Digo então o que penso, e com data. Acho que Jerônimo Rodrigues ganha esta eleição em 4 de outubro, sem segundo turno, e não me parece disparate que termine sete a dez pontos à frente de ACM Neto. É aposta, não apuração. Em novembro se cobra.
O que sustenta a aposta não está na disputa estadual. Está no módulo federal da mesma pesquisa, onde Lula aparece com 56% contra 23% de Flávio Bolsonaro. Trinta e três pontos de diferença no maior colégio eleitoral do Nordeste.
Voto não se transfere por decreto, e quem soma percentual de candidaturas diferentes está errando a conta de propósito. O que interessa é o vão entre os dois números. Lula tem 56 na Bahia, Jerônimo tem 42, e nesses quatorze pontos mora um eleitorado que já decidiu votar no presidente e ainda não decidiu votar no governador. Essa gente não está em disputa com a oposição. Está esperando ser chamada, e será chamada em cadeia nacional a partir de setembro, com o presidente no palanque, pedindo voto pelo nome.
Jerônimo não precisa de todos eles. Precisa de menos da metade.
ACM Neto não dispõe de estoque parecido, e é nesse ponto que a eleição desequilibra. Dois mandatos na prefeitura de Salvador, a presidência nacional do União Brasil e uma campanha ao governo em 2022 não deixaram nenhum eleitor baiano por descobrir quem ele é. Quarenta e quatro por cento é muita coisa e ninguém sério diminui esse número. Ocorre que são os mesmos 44% de março, e um piso desses costuma parecer confortável até o dia em que se descobre que era o teto.
Há um dado que joga contra o que estou escrevendo, e está na mesma pesquisa. Perguntados em quem não votariam de jeito nenhum, 44% citaram Neto e 43% citaram Jerônimo, resultado que contraria as rodadas anteriores da Quaest, nas quais a folga entre os dois era maior. Não vou fingir que não vi. Apenas não consigo extrair dali uma conclusão: rejeição parelha se anula e devolve a partida para o terreno em que os dois candidatos são desiguais, que é o do crescimento ainda disponível.
Se dependesse só de Lula, eu seria mais cauteloso. Não depende. No cenário consolidado para o Senado, Rui Costa marca 25% e Jaques Wagner, 20%, ambos à frente de Angelo Coronel e João Roma, empatados em 15%. A Quaest de julho já havia apontado a mesma ordem.
Quem analisa a Bahia lendo candidatura por candidatura vai errar outra vez. Não há uma candidatura, há uma chapa com vinte anos de rodagem: um presidente que vence por trinta e três pontos no estado, um governador em condição de reeleição, dois ex-governadores disputando as duas vagas do Senado e uma malha de prefeitos, deputados e secretarias municipais que já fez isso antes e sabe como se faz. Percentual de um não vira percentual do outro. Estrutura, ao contrário, se empresta.
Em setembro, o eleitor de Barreiras, de Juazeiro ou de Vitória da Conquista não receberá quatro pedidos de voto separados. Receberá um.
Sobra a condição de governador, que merece ser tratada sem hipocrisia e sem calúnia. Incumbência não é máquina, é exposição: quem governa inaugura, entrega, roda o interior e senta com prefeito. Se o governo for ruim, isso vira passivo, e vira depressa. A Quaest de julho mediu 57% de aprovação contra 34% de desaprovação, com 52% dos entrevistados afirmando que Jerônimo merece ser reeleito e 41% dizendo o contrário. O Real Time desta semana é bem mais duro na mesma pergunta, com 51% de aprovação contra 47%.
Os institutos divergem, e omitir isso do leitor seria desonestidade. Nos dois, porém, a aprovação é maioria. E o número da Quaest segue sendo o mais interessante de toda a série, porque mede exatamente a distância entre aquilo que o eleitor já concluiu e aquilo que ele ainda não declarou. Cinquenta e dois por cento acham que o governo deve continuar. Quarenta e dois dizem que votarão nele. Campanha existe para fechar esses dez pontos.
Foi por aí que a hipótese do primeiro turno deixou de ser conversa fiada. Ganhar em outubro exige maioria dos votos válidos, e quem lê os 42% imagina uma escalada de oito pontos até os 50. Não é o caso. Retirados da base os 7% de brancos e nulos e os 4% que não responderam, o governador já se encontra bastante acima de 42% entre os válidos. O que falta é pouco, e faltam ainda cinquenta dias de horário eleitoral gratuito, palanque presidencial e prefeitura pedindo voto na rua.
A Bahia, aliás, já pregou essa peça, e há pouco tempo. Em setembro de 2022, esse mesmo Real Time Big Data registrou ACM Neto com 49% e Jerônimo Rodrigues com 24%. Vinte e cinco pontos. Poucos dias antes, o Ipec havia medido 56 a 16. Jerônimo tomou posse em janeiro seguinte. E em 2006, quando Paulo Souto começou a disputa como favorito folgado, Jaques Wagner resolveu no primeiro turno.
Não é lei da física, e quem converte padrão em profecia acaba se dando mal. Serve apenas para lembrar por que o campo que governa a Bahia desde 2007 costuma crescer no segundo tempo. É no segundo tempo que a estrutura dele entra em campo.
Em 2026 há um detalhe que não existia em 2022: Jerônimo já não é o secretário de Desenvolvimento Rural que metade do estado não sabia nomear. É o governador.
Nada disso está garantido. Se ACM Neto encontrar um tema capaz de puxar a discussão do plano nacional para o estadual, se a economia baiana virar nos próximos sessenta dias, se houver um acidente sério de campanha, este texto envelhece mal e está assinado. O que não consigo aceitar é a leitura oposta, a de que 44 a 42 seja o retrato antecipado do dia 4 de outubro. Ela exige acreditar que Lula não puxa ninguém, que aprovação majoritária não vira voto, que Rui e Wagner farão campanha cada um por sua conta e que vinte anos de máquina municipal atravessarão setembro assistindo. Pode ser.
Não aposto nisso.