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domingo, 28 de abril de 2013

'Insetos detetives' podem ajudar na elucidação de crimes no Amazonas

Inpa auxília Polícia Civil em investigações de cadáveres em decomposição.
Moscas varejeiras e besouros são insetos mais comuns nesses casos.

Camila Henriques Do G1 AM
Durante pesquisas, biólogos fazem coletas em cadáveres de porcos, em áreas mais comuns às desovas (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr. José Albertino Rafael (Inpa)) 
Durante pesquisas, biólogos fazem coletas em cadáveres de porcos, em áreas mais comuns às desovas (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr. José Albertino Rafael (Inpa))
Um campo de pesquisa relativamente recente no Brasil, a entomologia forense tem sido usada como trunfo de investigações policiais. Em Manaus, apenas o Instituto Nacional de Pesquisa (Inpa) trabalha com esse estudo, que está atualmente associado a três processos judiciais. A informação é do pesquisador e doutor em entomologia José Albertino Rafael, que recebeu o G1 no campus 2 do Inpa, onde explicou como é o processo de investigação com suporte científico.
“A entomologia forense busca informações úteis para a polícia por meio do estudo dos insetos que colonizam um cadáver em decomposição”, resumiu o pesquisador, que, junto a outros dois doutores e um grupo de alunos de pós-graduação, auxilia a Polícia Civil durante as investigações.
De acordo com José Albertino, esse tipo de pesquisa trabalha com duas frentes no país. A primeira, intitulada Intervalo Pós-Morte (IPM), já está em prática no Amazonas, após um processo de mais de dez anos. “Fazemos uma observação no corpo para dizer já há quanto tempo o indivíduo está morto”, explicou.
Pesquisador afirma que estudos em Manaus começaram mais de uma década antes de os experimentos serem colocados em prática (Foto: Camila Henriques/G1 AM) 
Pesquisador afirma que estudos em Manaus começaram mais de uma década antes de os experimentos serem colocados em prática (Foto: Camila Henriques/G1 AM)
Insetos ‘direcionam investigação’, diz pesquisador
Para chegar à conclusão em relação ao período em que o cadáver está decomposto, os pesquisadores recorrem à biologia dos insetos. Em outras palavras, os animais que se desenvolvem no corpo em decomposição são coletados e, as informações obtidas a partir desse momento são passadas para o inquérito policial. “É possível dizer com precisão há quanto tempo a pessoa está morta. Isso é extremamente importante para a polícia, que pode direcionar a investigação para determinadas pessoas. Se, por exemplo, o indivíduo está morto há três dias, e, durante aquele período um dos suspeitos não estava na cidade, ele é automaticamente excluído da investigação”, apontou.

O experimento é feito ainda em campo, aproveitando as condições naturais dos ambientes onde as desovas acontecem. Segundo o pesquisador, os insetos mais comuns nesses casos são as chamadas moscas varejeiras e os besouros. “Conhecendo os estados de desenvolvimento deles, que são bastante cronológicos, fica mais fácil estimar o tempo de morte”, ressaltou. “Quando não há ferimento, a colonização começa pelas mucosas (olho, nariz, boca, anus, genitálias). Do contrário, esse processo tem início nos ferimentos e em maior abundância”, completou.
Suíno utilizado para experimentos de doutores e pós-graduandos do Inpa (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr. José Albertino Rafael (Inpa)) 
Suíno utilizado para experimentos de doutores e
pós-graduandos do Inpa (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr.
José Albertino Rafael (Inpa))
Chuvas e temperatura são obstáculos
Sobre as maiores dificuldades do processo, José Albertino destacou a oscilação do clima amazônico. “No Amazonas temos temperaturas mais altas e, portanto, mais rapidez na decomposição dos corpos e no desenvolvimento da biologia dos insetos. Um cadáver que, no Sul, demora de dois a três meses para se decompor, aqui já está em fase de esqueleto depois de sete dias. Por isso, não podemos pegar a literatura e aplicar o que foi proposto para São Paulo. Temos que adaptar às nossas condições climáticas”, frisou.
O período chuvoso também atrapalha o trabalho dos entomólogos. “A chuva impede que as moscas se aproximem do corpo. Como só podemos estimar o tempo de morte com base na colonização dos insetos no cadáver, destacamos os dias que choveram no nosso relatório”, acrescentou o pesquisador.
Morte por overdose também pode ser elucidada
Outra técnica de investigação por meio da entomologia forense é a entomotoxicologia. Como o próprio nome sugere, essa vertente utiliza os insetos para apontar a causa da morte em casos de overdose.  “A biologia da decomposição da pessoa faz com que a droga desapareça do corpo e, ao mesmo tempo, os insetos assimilem a substância. Por meio de análises entomotoxicológicas, é possível dizer se aquele cadáver morreu ou não por overdose e inclusive dizer qual é a droga”, revelou.
A entomotoxicologia ainda está em fase de estudos no Amazonas. Até o final do primeiro semestre, será apresentada uma tese a respeito do assunto, de acordo com José Albertino. Entretanto, o biólogo afirma que este é apenas o início do trabalho. O próximo passo? Conseguir equipamentos para concretizar a investigação. No momento, os pesquisadores só possuem dados a partir de cocaína, fornecida pela Polícia Federal especialmente para esse trabalho. “Precisamos fazer experimentos com diversas outras drogas porque no momento só podemos dizer se ela morreu ou não em decorrência da cocaína, e não de outras substâncias. Hoje também dependemos de analises que tem que ser feitas fora”, encerrou.
Para realizar experimento, pesquisadores isolam área onde cadáver foi encontrado (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr. José Albertino Rafael (Inpa)) 
Para realizar experimento, pesquisadores isolam área onde cadáver foi encontrado (Foto: Arquivo Pessoal/ Dr. José Albertino Rafael (Inpa))
Polícia aprova ‘ajuda’ de ‘insetos-detetives’
Com o intuito de orientar os policiais que participam desse tipo de investigações, o Inpa realiza cursos específicos de entomologia forense. Uma das alunas é a perita criminal da Polícia Civil Cíntia Barreto, 28 anos. “Isso é uma ferramenta a mais para elucidar casos aparentemente difíceis por não terem provas. Quando constatamos que, apesar de a pessoa estar desaparecida há dez dias, a mosca está no local há nove, chegamos à conclusão de que o indivíduo não foi morto de imediato”, exemplificou a perita, que por também ser bióloga, participa das análises em laboratório.

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